Tapionzetmarton

Que porra de nome é esse? Num caminho imaginário, você se depara com várias coisas que, ali, parecem concretas: idéias, sonhos, opiniões. Você vê de tudo neste caminho, a grande maioria bizarrices. Eis que cruza seu caminho uma ovelha negra, com vontade de contar tudo, e com uma certa esperança de que seja você a pessoa que vai entendê-la. Depois de tanta insanidade neste mundo fictício, o momento do encontro com a ovelha chegou.

27 janeiro 2007

Melbourne, 20 de maio de 2035

Eu tinha 5 anos. Minha mãe me levou até o jardim, e lá colhi uma flor amarela. Não tinha muita noção do mundo, mas já aprendia algumas palavrinhas que eu sabia que eram boas: jardim, flor, céu, Vida. Coisas que faziam bem. Eu reclamava, é claro. Mas reclamava de não ganhar pirulito, de não ganhar colo num dia quente quando eu não agüentava mais andar, de comer coisa ruim. Eram tão poucas coisas, mas pareciam tantas!
Eu tinha 10 anos. Meu colégio fazia um passeio pelo jardim da flor amarela. E colhi uma novamente. Eu já sabia muito mais coisas boas, e também ruins. Já dava sinais de quem eu era e de quem queria ser. Gostava de fazer coisa errada pra desafiar meu limite – só assim saberia até onde poderia ir. Eu reclamava, é claro. Reclamava da roupa feia que minha mãe escolhia, da mesada do pai que era muito pequena, de ir até aquele tio chato quando meus amigos estavam na praia. Não eram coisas muito grandes, mas pareciam.
Eu tinha 15 anos. Fui até um jardim e nem me dei conta do que havia lá. O mundo não era um lugar bom. Tudo que eu achava certo não acontecia. Meus pais eram chatos, nenhuma menina me achava bonito, eu não era o melhor do colégio no futebol, não sabia tocar violão, não tinha nada de especial. Tenho certeza que se eu não estivesse no mundo, não faria diferença pra ninguém. E é claro que eu reclamava de tudo isso. Eram coisas grandes demais pra uma cabeça ainda tão pequena em conteúdo.
Eu tinha 20 anos. Desanimado, fui até o jardim da minha infância e encontrei uma flor azul. Linda! Nunca havia visto! Ela me despertara todos os bons sentimentos que eu já havia sentido, e até os que eu só conhecia de nome. O mundo podia não ser um lugar bom pra se viver, mas valia a pena viver. Tinha tanta coisa boa pra compensar o que havia de ruim. Aliás, o que havia de ruim parecia um mundo à parte, o meu era bom! Não era perfeito, eu tinha do que reclamar. Reclamava dos meus pais – ainda –, das coisas que não saiam do jeito que eu queria, de não ter dinheiro pra sair ou passear. Reclamava muitas vezes com razão, muito mais vezes sem.
Eu tinha 25 anos. Um dia antes de viajar, fui aproveitar minha cidade, e dar uma volta no jardim. Na verdade, queria ver de novo a flor azul. E lá estava ela. Lembrando-me tudo que de mais bonito eu já havia sentido até hoje. Mas dessa vez, com uma dor no peito. E essa dor tinha nome: saudade. Eu estava preste a rodar o mundo, mas um mundo dentro de mim continuava rodando e me deixando tonto. Não tinha uma vida bem sucedida, não tinha uma grande formação, mas pior que isso, não tinha o que eu mais queria. Apesar estar realizando um sonho, tinha esses motivos pra reclamar. E a dor era grande.
Eu tinha 30 anos. Minha vida estava solidificada. Emprego, casa, dinheiro, diversão, saúde. Ainda faltava um grande sonho: um filho. Até porque eu já havia plantado uma árvore e escrito um livro. Mas eu me recusava. Não queria ser pai de uma criança que não tivesse como mãe a mulher que eu amo. Eu dava outras desculpas pra minha esposa – com quem não havia casado na igreja, na esperança de ela voltar. Mas era melhor assim. Eu já não reclamava, tinha tudo que um homem quer ter, menos o que não podia ter.
Eu tinha 35 anos. Nada havia mudado. Mesmo emprego, mas com uma promoção. Mesma casa, além de mais uma no litoral. Dinheiro, diversão, saúde, tudo como antes. Mesma mulher, ainda sem filhos. E além da saudade, a sensação que, quanto mais o tempo passava, mais eu deixava algo importante para trás. Alguma coisa, não alguém nem uma situação, mas uma coisa. Não demonstrava pra ninguém, mas essa impressão até tirava meu sono. Não chegava a reclamar, mas tinha vontade. Aliás, não tinha pra quem.
Eu tinha 40 anos. Estava separado havia 4 anos, mas minha vida continuava bem sustentada, já que grande parte dos bens do casal pertenciam a mim. Não houve problemas com filhos, nem preciso dizer porquê. E, numa bela manhã de sol, andando numa praça daquela cidade tão distante do meu berço, eu vejo aquela coisa. Aquela coisa que me tirou o sono por várias noites, durante anos, saltando aos meus olhos. Olhei em volta pra ter certeza que não estava fazendo papel de idiota com a minha reação, mas já era tarde. Lá estavam elas. Não uma, mas duas flores. Uma azul, outra amarela.
Corri até o aeroporto, disposto a reaver a vida que havia deixado pra trás. Fui disposto a realizar meu último sonho com a única pessoa capaz de me ajudar. Não me preocupei com minha casa e carro, tinha boa relação com os vizinhos, sei que cuidariam muito bem de tudo. Fui com a roupa do corpo e com o dinheiro da passagem. Mas só fui gastá-lo mais tarde, com um táxi. O táxi que me levava de volta à minha casa.
Eu tinha 45 anos. Ainda lembrava com detalhes da tarde que pensei em voltar à minha cidade atrás da mulher da minha vida. Tanta coisa podia acontecer naquele dia, mas justamente aquilo! Foi chocante. Mal soube como reagir. Só sabia, exatamente, o que fazer daquele dia em diante na minha vida. Foi o que fiz desde então. Quem diria que o que parecia uma paixão jovial ia ter um resultado como esse.
Estou com 50 anos. Estou deitado na rede da varanda da minha casa no litoral, que comprei logo que havia chegado aqui. É gostoso escrever com esta brisa no rosto, lembrar destes momentos tão marcantes. É... é bom sim. Percebo que aproveitei minha vida, talvez não do melhor jeito, mas do meu jeito. Ainda me resta muito tempo, graças a Deus. E sei que posso fazer muita coisa ainda. Mas, depois de ler esta curtíssima memória e ver como está minha vida hoje, eu me pergunto se valeu a pena ter reclamado tanto. Se eu não reclamasse, seria diferente? Não tem como dizer.
Bom, agora vou até a cozinha tomar um café, depois cuidar do pequeno jardim no fundo da casa – com flores azuis e amarelas –, e levar meu filho até a praia.

13 janeiro 2007

Bifurcação com entroncamento a 500m

Você quer estar com ela. Você não pode estar com ela. Você sofre longe dela. E agora, José? A festa vai acabar? Você é quem decide, José.
Eu sei, você ama ela. Você releva muita coisa porque acha que ela ainda tem o direito de errar. Você enfrenta todos esses problemas de cabeça erguida, e eu sei bem porquê: são problemas de hoje, não coisas que vão durar toda a vida de vocês. Sofrer hoje é uma etapa do processo que culminará no casamento, na união das suas vidas. Vida. Então, força pra encarar isso, eu sei, você tira do seu sonho, do seu futuro. Você quer fugir, e só voltar se for pra buscar ela. Você dá pra ela a força que ela precisa, mesmo que precise alimentá-la tirando uma parte da sua. E daí que ninguém te apóia? Nem sua mãe, nem seus amigos... Nem eu, confesso. Mas isso é com você. Você quer? Brigue, lute, não deixe que o mundo tome o que é teu! Você suportou pesos muito grandes, eu sei. E acho lindo que tenha feito isso sustentado única e exclusivamente no amor que você alimenta. O peso é grande, e ninguém que eu conheço agüentaria como você agüentou até agora. Mas nem Jesus agüentou todo o peso da cruz no caminho do calvário, não?
Agora, veja o que foi que você conquistou até hoje. Mudou alguma coisa desde que tudo isso começou? Se mudou, foi pra melhor? A quem você fez bem? Você fez bem a si mesmo? Rapaz, onde ela estava quando você largou do mundo pra amá-la? Ela fez algo por você? Pense bem nessas questões. Pense bem no que você quer pra sua vida. Vida. Lembre do grande caminho que foi a sua vida até hoje, e lembre das suas aventuras. Compare os seus sentimentos, as suas “ambições” com as de hoje. Cara, tem grandes questões que eu não consigo aceitar nesse seu comportamento teimoso (ou determinado?): você fez o que fez, mas ela tem um namorado. E daí se ela diz que vai terminar: terminou? Você a vê fazer algo do que ela fala? Se ela diz que não quer te perder, o que ela fez pra te ter? Ela acredita tanto quanto você? Eu sei bem de toda a história, cara. Sei que você quer. Só não sei se você deve.

Olha, aqui é o "José". E eu quero te lembrar uma coisa: eu acredito que nada pode superar a força de um amor. Eu me sinto como se estivesse pedalando no olho de um furacão. Mas eu ainda não caí. Posso ter errado muito, mas num lance desse, até errando a gente acerta. Eu estou sumindo, a partir de hoje, da vida dela. Sei que posso ser mais duro que quero com ela. Mas preciso disso hoje, assim como preciso dela na minha vida. Vida. Talvez ela precise ouvir o que quero falar, não sei. O que eu sei sobre o que fazer cabe na cabeça de um alfinete, e ainda sobra espaço pro Pai-Nosso. Só sei que, seja lá o que eu fizer, vai dar certo. E eu vou ficar com ela. Porque eu acredito nisso, mais do que qualquer outra coisa. Abandono um sonho se for pra ter ela. Eu ignoro o que acontece de ruim hoje porque sei que nada disso vai ser relevante daqui a um certo tempo, e que tudo estará ótimo no dia do nosso casamento. Dia em que eu vou jogar muita coisa na cara de muita gente. Até na sua.

Pequenas composições da semana:
1)
Você não é o que você fala.
Muitas vezes, você fala, ou deixa de falar, pra agradar alguém, pra ser conveniente, pra ser aceito. Mentiras vêm através de palavras. Você nunca fala o que quer, às vezes fala o que não quer. É preciso algo mais pra acreditar nas suas palavras.
Você não é o que você sente.
Sentimentos são facilmente reprimidos por qualquer tribulação: medo é a principal. Tão difícil quanto mostrar que “eu gosto de você” é mostrar que “eu não gosto de você”. Mas é preciso mostrar. É preciso algo mais pra acreditar nos seus sentimentos.
Você não é o que você pensa.
É constante a situação de dizer uma coisa, sentir outra e pensar uma terceira. Pensamentos têm o dom de se embaralhar. Além disso, há momentos em que, por confusão do mundo ou de dentro de si mesmo, pensar e sentir se contradizem num abismo envolto em trevas. É preciso algo mais pra acreditar nos seus pensamentos.
Você é o que você faz.
E também o que deixa de fazer. Suas atitudes são reflexo dos seus pensamentos, sentimentos e palavras. Ao conhecer alguém, só se guardam as feições e reações. Atitude é, puramente, o que há em você. Pelas suas atitudes, posso acreditar em você.

2)
É tudo quase lindo. Eu quase te amo, você quase me ama. Você faz quase tudo pra gente ficar junto, e eu quase acredito que você quer. Nós quase não temos problemas; até temos quase um sonho. Nós vamos ficar quase juntos pra sempre. Quase tudo me lembra você.
Já faz quase dois anos que quase nos conhecemos. Tivemos momentos quase bons, brigas quase sinceras, e hoje somos quase um par.
Só quero dizer que, ontem, quase não acreditei. E hoje estou quase chorando, porque estou quase te esquecendo.

3)
Olho pra trás, vejo você chorar
Eu tentei, não sei acreditar
Vejo atrás de você as escadas
Tantas vezes me levaram a dormir
A sonhar, ao teu lado, ó amada!
Quando até fingir nos fazia rir
Vejo nossa sala toda decorada
Tantos detalhes, estilo japonês
Vejo, todo branco, o quarto do bebê

Minhas lembranças cessam com teu pranto
Olho pra frente, vejo a porta aberta
Já vou... Será?... Por enquanto...
Não sei... Não sei...