Melbourne, 20 de maio de 2035
Eu tinha 5 anos. Minha mãe me levou até o jardim, e lá colhi uma flor amarela. Não tinha muita noção do mundo, mas já aprendia algumas palavrinhas que eu sabia que eram boas: jardim, flor, céu, Vida. Coisas que faziam bem. Eu reclamava, é claro. Mas reclamava de não ganhar pirulito, de não ganhar colo num dia quente quando eu não agüentava mais andar, de comer coisa ruim. Eram tão poucas coisas, mas pareciam tantas!
Eu tinha 10 anos. Meu colégio fazia um passeio pelo jardim da flor amarela. E colhi uma novamente. Eu já sabia muito mais coisas boas, e também ruins. Já dava sinais de quem eu era e de quem queria ser. Gostava de fazer coisa errada pra desafiar meu limite – só assim saberia até onde poderia ir. Eu reclamava, é claro. Reclamava da roupa feia que minha mãe escolhia, da mesada do pai que era muito pequena, de ir até aquele tio chato quando meus amigos estavam na praia. Não eram coisas muito grandes, mas pareciam.
Eu tinha 15 anos. Fui até um jardim e nem me dei conta do que havia lá. O mundo não era um lugar bom. Tudo que eu achava certo não acontecia. Meus pais eram chatos, nenhuma menina me achava bonito, eu não era o melhor do colégio no futebol, não sabia tocar violão, não tinha nada de especial. Tenho certeza que se eu não estivesse no mundo, não faria diferença pra ninguém. E é claro que eu reclamava de tudo isso. Eram coisas grandes demais pra uma cabeça ainda tão pequena em conteúdo.
Eu tinha 20 anos. Desanimado, fui até o jardim da minha infância e encontrei uma flor azul. Linda! Nunca havia visto! Ela me despertara todos os bons sentimentos que eu já havia sentido, e até os que eu só conhecia de nome. O mundo podia não ser um lugar bom pra se viver, mas valia a pena viver. Tinha tanta coisa boa pra compensar o que havia de ruim. Aliás, o que havia de ruim parecia um mundo à parte, o meu era bom! Não era perfeito, eu tinha do que reclamar. Reclamava dos meus pais – ainda –, das coisas que não saiam do jeito que eu queria, de não ter dinheiro pra sair ou passear. Reclamava muitas vezes com razão, muito mais vezes sem.
Eu tinha 25 anos. Um dia antes de viajar, fui aproveitar minha cidade, e dar uma volta no jardim. Na verdade, queria ver de novo a flor azul. E lá estava ela. Lembrando-me tudo que de mais bonito eu já havia sentido até hoje. Mas dessa vez, com uma dor no peito. E essa dor tinha nome: saudade. Eu estava preste a rodar o mundo, mas um mundo dentro de mim continuava rodando e me deixando tonto. Não tinha uma vida bem sucedida, não tinha uma grande formação, mas pior que isso, não tinha o que eu mais queria. Apesar estar realizando um sonho, tinha esses motivos pra reclamar. E a dor era grande.
Eu tinha 30 anos. Minha vida estava solidificada. Emprego, casa, dinheiro, diversão, saúde. Ainda faltava um grande sonho: um filho. Até porque eu já havia plantado uma árvore e escrito um livro. Mas eu me recusava. Não queria ser pai de uma criança que não tivesse como mãe a mulher que eu amo. Eu dava outras desculpas pra minha esposa – com quem não havia casado na igreja, na esperança de ela voltar. Mas era melhor assim. Eu já não reclamava, tinha tudo que um homem quer ter, menos o que não podia ter.
Eu tinha 35 anos. Nada havia mudado. Mesmo emprego, mas com uma promoção. Mesma casa, além de mais uma no litoral. Dinheiro, diversão, saúde, tudo como antes. Mesma mulher, ainda sem filhos. E além da saudade, a sensação que, quanto mais o tempo passava, mais eu deixava algo importante para trás. Alguma coisa, não alguém nem uma situação, mas uma coisa. Não demonstrava pra ninguém, mas essa impressão até tirava meu sono. Não chegava a reclamar, mas tinha vontade. Aliás, não tinha pra quem.
Eu tinha 40 anos. Estava separado havia 4 anos, mas minha vida continuava bem sustentada, já que grande parte dos bens do casal pertenciam a mim. Não houve problemas com filhos, nem preciso dizer porquê. E, numa bela manhã de sol, andando numa praça daquela cidade tão distante do meu berço, eu vejo aquela coisa. Aquela coisa que me tirou o sono por várias noites, durante anos, saltando aos meus olhos. Olhei em volta pra ter certeza que não estava fazendo papel de idiota com a minha reação, mas já era tarde. Lá estavam elas. Não uma, mas duas flores. Uma azul, outra amarela.
Corri até o aeroporto, disposto a reaver a vida que havia deixado pra trás. Fui disposto a realizar meu último sonho com a única pessoa capaz de me ajudar. Não me preocupei com minha casa e carro, tinha boa relação com os vizinhos, sei que cuidariam muito bem de tudo. Fui com a roupa do corpo e com o dinheiro da passagem. Mas só fui gastá-lo mais tarde, com um táxi. O táxi que me levava de volta à minha casa.
Eu tinha 45 anos. Ainda lembrava com detalhes da tarde que pensei em voltar à minha cidade atrás da mulher da minha vida. Tanta coisa podia acontecer naquele dia, mas justamente aquilo! Foi chocante. Mal soube como reagir. Só sabia, exatamente, o que fazer daquele dia em diante na minha vida. Foi o que fiz desde então. Quem diria que o que parecia uma paixão jovial ia ter um resultado como esse.
Estou com 50 anos. Estou deitado na rede da varanda da minha casa no litoral, que comprei logo que havia chegado aqui. É gostoso escrever com esta brisa no rosto, lembrar destes momentos tão marcantes. É... é bom sim. Percebo que aproveitei minha vida, talvez não do melhor jeito, mas do meu jeito. Ainda me resta muito tempo, graças a Deus. E sei que posso fazer muita coisa ainda. Mas, depois de ler esta curtíssima memória e ver como está minha vida hoje, eu me pergunto se valeu a pena ter reclamado tanto. Se eu não reclamasse, seria diferente? Não tem como dizer.
Bom, agora vou até a cozinha tomar um café, depois cuidar do pequeno jardim no fundo da casa – com flores azuis e amarelas –, e levar meu filho até a praia.

