Chuva
Chuva. Simples assim.
Tá chovendo. E eu adoro essa garoa. É até melhor que um dia de sol, aberto, sem nenhuma nuvem. A garoa caindo assim, bem de leve, e caminhando de mãos dadas com o vento. Batendo no rosto, no pescoço, no braço que ficou descoberto pela manga curta da camisa, e só fingindo que molha. Molha, claro, mas é tão pouquinho que, se entrar em qualquer lugar fechado, ninguém vai perguntar se “está chovendo lá fora?”, e eu não vou precisar responder que não, que eu estou assim molhado porque todo mundo na rua resolveu cuspir em mim. Essa garoa. Até o ar que se respira é mais gostoso, mais puro. O cabelo molha nem muito nem pouco, o suficiente pra passar a mão e dar aquela arrumada de última hora. Tudo bem que não tem jeito com a areia, vira barro de qualquer jeito. Mas nos poucos lugares que isso acontece, dá pra evitar dando uma pequena voltinha. Garoa plenamente refrescante. Na minha singela opinião, revigorante.
Você odeia essa tempestade. O céu azul, aquele azul, foi encoberto por um cinza escuro que parece te olhar com raiva, que está ali só pra atrapalhar a sua vida. Cadê o brilho do sol? Até parece que não existe mais! Os planos acabaram: não dá pra sair de casa, não dá pra usar as coisas de casa – porque a luz acabou, e tem que se contentar com uma vela – nem do vizinho, se já saiu de casa vai blasfemar contra tudo e todos porque já está encharcada. Ainda se Deus tivesse avisado antes, dava tempo de construir uma arca. A blusa rosa molhada, a calça jeans desbotada, o allstar assobiando a cada passo que você dá, num ritmo que eu conheço bem o suficiente pra não me fazer dormir de noite. Eu ainda te dei um guarda-chuva, mas acho que ele não agüentou a força da tempestade. Além de tudo isso, eu adoro seu cabelo molhado. Lembro de um dia, quando você estava com o cabelo molhado... Mas você só vê a tempestade.
E essa é só mais uma chuva. O céu fechou, a água refrescou quem queria ser refrescado, molhou quem queria ser molhado, atrapalhou quem queria ser atrapalhado. Ela acabou, mas não morreu. Ela está por aí, no meio da grama, num pedaço de terra encharcado, numa poça que ainda não secou. O sol vai bater, a água vai subir sem você ver, e vai chover de novo. Quando a mulher da TV avisar, eu já vou estar preparado. Só falta saber se eu vou querer ser refrescado, molhado ou atrapalhado. Você também. A gente também.


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